Vlad, o Empalador
Vlad Tepes, cognominado "Drácula" nasceu na Transilvânia, na cidade de Sighiosara, burgo saxônico, entre 1430 e 1431, tendo passado sua juventude em atmosfera particularmente germânica, viajando freqüentemente a Alemanha durante sua adolescência, tendo sido levado ainda bebê (ao redor de 1430) para Nuremberg, sede do Sacro Império Romano-Germânico na ocasião na qual seu pai foi agraciado com a ordem do Dragão e feito, por boiardos dissidentes, chefe do principado romeno meridional da Valáquia e duque dos distritos transilvanos de Amlas e Fagaras.
Em função desse juramento formal realizado em Nuremberg quando recebeu a ordem do dragão, todos os Drácula, sob esse estandarte, se dedicaram ao combate aos turcos e a busca do trono valáquio.
Ao redor de 1436-1437, Dracul, o pai, expulsou Alexandru Aldea da Valáquia validando assim seu título de príncipe e fazendo uma aliança com o sultão turco Murad II em função da qual atacou, diversas vezes, várias cidades e povoações da Transilvânia que preferiam
se render a ele em função da própria nacionalidade o que ocasionou que os turcos percebessem a política por ele adotada aprisionando-o, juntamente com seus dois filhos, Drácula e Radu, em 1444.
Enquanto o pai saía dessa prisão sob custódia, ambos os filhos permaneceram prisioneiros, ficando Drácula em poder dos turcos até 1448. Seu irmão Radu, em consequencia de temperamento aparentemente afável, tornou-se mais facilmente influenciado pelas técnicas de doutrinação turcas, transformando-se em um dos favoritos do sultão e, mais tarde, o candidato oficial dos turcos ao trono valáquio. Drácula, ao contrário, reagiu de maneira diferente, aprendendo o turco e assimilando alguns aspectos de sua cultura como os prazeres do harém e o cinismo bizantino, o que fez com que tivesse cada vez menor consideração para com a natureza humana (McNally, Florescu, 1975), manifesta sob diferentes formas de sua conduta posterior.
Provavelmente em função dessas primeiras experiências decorrentes da conduta de seu próprio pai ( como por exemplo ser abandonado entre os turcos enquanto aquele conseguia a própria liberdade), aprendeu a não confiar em mais ninguém independentemente de sua origem. Paralelamente a essa desconfiança ( reforçada pela conduta de seu irmão Radu), seu caráter vingativo foi reforçado, fazendo com que não mais se esquecesse de qualquer um que lhe traísse.
Em 1447 Dracul, o pai, foi assassinado, nos pântanos de Balteni, a mandado de João Hunyadi, em função das alianças anteriormente feitas por ele com os turcos. Logo após é assassinado seu irmão mais velho, Mircea, que havia lutado contra os turcos na campanha militar de 1443, organizada pelo próprio Hunyadi. Dessa maneira, as relações de parentesco se desfazem e a idéia de vínculos de amizade e confiança é destruída.
Em 1448 deixando o cativeiro, Drácula é colocado pelos próprios turcos no trono valáquio em função de sua oposição aos húngaros, porém, com medo de ser capturado, foge para a Moldávia, o principado romeno mais setentrional, onde permaneceu até 1451, quando completou 23 anos de idade.
Nessa ocasião volta para a Transilvânia colocando-se a disposição de João Hunyadi que o aceita como uma alternativa de oposição aos turcos, tornando-se seu mentor político, seu tutor e seu educador militar até 1456 quando morre em Belgrado.
Como consequência dos serviços prestados a Hunyadi recebeu os ducados de Amlas e Fagaras, tornando-se, em conseqüência, pretendente ao trono valáquio. Nesse período permaneceu residindo em Sibiu por quatro anos.
Em 2 de abril de 1459, como consequencia de campanhas militares nas quais tentava fazer valer a supremacia valáquia, empala milhares de cidadãos germânicos ao redor da cidade de Brasov.
Em 1460, após ter saído de Sibiu, também a ataca com 20.000 soldados valáquios matando e empalando cerca de 10.000 de seus antigos concidadãos. Nesse mesmo ano, no dia de São Bartolomeu, 24 de agosto, empala cerca de trinta mil pessoas na cidade de Almas.
Todos esses fatos mostram, de maneira flagrante, seu desprezo pela natureza humana, inclusive pelos seus semelhantes de raça e de categoria social, assim como a prioridade dada aos seus objetivos ( o trono valáquio) em detrimento de quaisquer considerações de natureza ética ou humanística.
Entretanto, a despeito dessas características, mostra-se extremamente rígido, inclusive no aspecto sexual (de caráter reativo em função das experiências vividas no cativeiro turco?), tendo cometido nessa área inúmeras crueldades ao tentar converter em norma sua moral puritana. As mulheres que buscavam obter prazer sexual fora do matrimônio eram condenadas a morte, da mesma maneira que as viúvas impudicas ou as donzelas que não conservavam sua virgindade, sempre com castigos draconianos como a mutilação dos órgãos sexuais. Assim, fora do matrimônio, a sexualidade era, por ele, considerada como um desvio, uma transgressão ou um perigo ( Martin; 1983).
Isso porque pensava que a energia do país não podia se extraviar nem em sexo, nem em crimes nem em disputas e, por isso, punia todos esses atos da maneira mais drástica possível.
Em 1462, pressionado pelo turcos, e pouco após a morte de sua mulher que se suicidou nesse mesmo ano jogando-se da torre de seu castelo, provavelmente em função da aproximação dos turcos, coloca-se a mercê do filho de João Hunyadi, Matias rei da Hungria que, ao invés de lhe conceder asilo lhe encerra na fortaleza de Visegrad onde permanece os 12 anos seguintes de sua vida. Sua prisão é devida, provavelmente, a uma armadilha preparada pelos saxões de Sibiu que assim vingam-se de seu ataque anterior. Durante esse período, narra a história que subornava seus carcereiros para que lhe trouxessem pequenos animais com os quais se divertia empalando-os.
Em função da atração que provocou na irmã de Matias, suas condições de prisão foram se tornando relativamente mais leves e ele renuncia a sua fé ortodoxa casando-se com ela e retornando, em consequencia, ao trono valáquio.
Libertado em 1474 permaneceu cerca de dois meses na cidade de Pest voltando para Sibiu onde ficou por dois anos tendo recebido um comando militar dado pelo rei Matias em 1475. Em novembro de 1476 inicia seu terceiro reinado na Valáquia, reinado esse que termina em dezembro, quando morre em combate, próximo a Bucareste.
Para alguns autores (McNally e Florescu, 1975) há dois aspectos importantes na personalidade de Drácula. Um primeiro de torturador e inquisidor. Outro o de nacionalista prematuro e estadista surpreendentemente moderno que justifica seus atos com razões de estado. Assim podemos considerá-lo como um dos artífices da unidade romena.
O primeiro aspecto pode ser visualizado nos refinamentos de crueldade apresentados por suas torturas. A tradição alemã, russa e romena referem que Vlad Tepes praticava a tortura principalmente por prazer (Martin, 1983) , sentenciando e executando segundo seus próprios impulsos, não respeitando nem a Igreja, nem o extermínio de famílias ou crianças. Seu método favorito foi a empalação, na qual em geral, amarrava-se um cavalo em cada perna da vítima e a estaca era introduzida cuidadosamente para que ela não morresse imediatamente. As estacas tinham, muitas vezes, sua ponta arredondada para que a tortura pudesse durar horas ou as vezes, dias. A empalação por ele praticada tinha várias características de acordo com a idade, a posição social ou o sexo, sendo seu requinte tamanho que o tornou conhecido por Vlad Tepes - Vlad o empalador.
Usualmente suas vítimas eram arrumadas em círculos concêntricos, nas cercanias das cidades para que pudessem ser vistas por todos. Havia chuços longos e curtos, de acordo com a posição social; a empalação podia ser realizada por cima - de cabeça para baixo - e por baixo - de cabeça para cima - ; através do coração ou através do umbigo. Utilizava cravos na cabeça, mutilação de membros, vazamento de olhos, estrangulamentos, queimaduras, corte de nariz, orelhas, órgãos sexuais, escalpamento e esfoladura, exposição aos elementos, aos animais selvagens e escaldadura.
Dessa maneira, ao se pensar sua conduta, deve se levar em conta que esses aspectos de crueldade refletiam não somente a perseguição implacável de seus objetivos políticos e militares mas também nela se confundiam aspectos ligados ao prazer decorrentes da aniquilação e da humilhação do outro. Assim deve ser pensada a figura do Drácula histórico para sua melhor compreensão.
 
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