Um Novo Vampiro
Um Novo Vampiro

Centro de São Paulo. Metrô, linha leste-oeste. Dez horas da noite. Estava eu novamente no último vagão do trem. Sempre sentado na última cadeira observando o movimento do vai e vem de pessoas entrando no vagão. Isso já era corriqueiro em minha vida. É o melhor horário para se estar num trem do metrô de São Paulo. Pouco movimento, pessoas cansadas de seus trabalhos, a grande maioria solitária, presa fáceis. Mas essa noite estava difícil, nenhuma vítima interessante.
Fiquei ali naquele banco, sentado, com uma das pernas no chão e outra esticada apoiada em outra cadeira. Eu tinha um ar assustador, as pessoas não se aproximavam de mim, o que ficava mais fácil observá-las. Eu usava uma calça jeans, bota preta, camiseta preta, jaqueta de couro, um pequeno crucifixo no pescoço e os meus cabelos estavam presos. Estava faminto. Meus olhos ficam diferentes quando estou com fome, ficam mais claros, por isso usava óculos escuros dentro do metrô para que as outras pessoas não notassem a minha fisionomia. Já pensavam que eu era um bandido sentado e vestido daquele jeito, imaginem se vissem meus olhos.
Um homem de estatura mediana entrou no vagão, com um livro embaixo do braço que logo notei ser uma bíblia. Estava mal vestido e sujo. Usava um terno velho cor azul clara, uma camisa branca, calça bege e um sapato velho. Pele escura, cabelos bem curtos e barba por fazer. Devia estar um pouco embriagado, pois falava com dificuldade aquele seu discurso bíblico:
- Deus está entre nós! Devemos obedecer a Deus. Ele é o nosso pastor.
Eu o observava fascinado. Todas aquelas palavras eu já conhecia muito bem. Se tem alguém que conhece bem o Deus e o Diabo, esse sou eu.
- Devemos destruir o demônio que existe entre nós - dizia freneticamente, quase gritando.
Seus movimentos eram bruscos, como se tivesse dando uma bronca aos possíveis e poucos pecadores que estavam naquele vagão. Eu ria por dentro. Era ridículo, mas fascinante. Por que ele estaria ali naquela hora dando aquele sermão?
De início achei interessante, mas depois de alguns minutos aquilo começou a me irritar. Queria avançar nele ali mesmo. Acho que ninguém notaria. Todos já estavam irritados com ele também.
Comecei a lhe mandar imagens de demônios e de tragédias para a mente dele, e me projetei fisicamente em sua mente para que ele parasse com aquele sermão idiota. Ele olhou para mim. Viu que aquela imagem daquele homem demoníaco que apareceu em sua mente era eu. Desesperou-se. Seus olhos se arregalaram, e na primeira parada do trem ele saiu correndo como o Diabo foge da cruz. Foi engraçado. Mas já estava cansado de ficar naquele vai e vem do trem. Nenhuma vítima, até que vi um rapaz entrar no trem, estava triste, com algumas lágrimas no rosto. Aquilo me deixou intrigado. Não conseguia ler sua mente. Será que ele era um de nós. Não. Suas lágrimas não eram de sangue. Mas por que não conseguia saber por que ele estava chorando e por que não conseguia ler sua mente? Estranho.
Na outra parada ele desceu. Estávamos na estação do Anhangabaú. Resolvi segui-lo. Ele subiu aquelas escadas rolantes e eu fui atrás. Fui seguindo até quando ele virou na rua Conselheiro Crispiniano. Parou perto de uma loja de eletrodomésticos, a qual aquela hora da noite estava fechada, mas estava bem escuro ali. E para a minha alegria, sem ninguém por perto.
Ele ficou de costas pra mim. Chorando. Aproximei-me dele e quando estava quase chegando perto dele, ele se virou para mim. Seus olhos eram negros, profundos e bonitos. As lágrimas davam-lhe um brilho reconfortante, apesar de notar que ele estava desesperado. Ele não se assustou com a minha presença.
- Se tiver que fazer algo comigo, faça agora - ele disse.
Afastei-me sem entender nada. Olhava-o por inteiro. Vestia uma camiseta de manga longa cinza clara. Uma calça jeans velha e um sapato de camurça também cinza claro.
- O quê? - perguntei intrigado.
- Você não irá me atacar? Percebi que me seguia.
Como ele notou que eu o seguia? Nunca isso havia acontecido. Quanto mais pensava nisso mais ficava irritado. Não conseguia ler sua mente e ele sabia que eu estava atrás dele.
- Não tem medo de mim? - perguntei.
- Não. - respondeu enxugando as lágrimas. - Sei que você é um vampiro.
Aquilo me arrepiou. Senti um frio na espinha que não sentia há muito tempo. Quem seria aquele rapaz?
- Como sabe que sou um vampiro?
- Há muito tempo o vejo no último vagão do trem, sempre no mesmo lugar observando as pessoas que entram e saem.
- Como nunca notei você?
- Aprendi usar suas técnicas.
- Como assim? - Sempre li muito sobre ocultismo, vampirismo, espiritismo e entrei numa seita satânica, aprendi a controlar a minha mente contra ataques de vampiros.
- Mas como notou que sou um vampiro?
- Sempre usa as mesmas roupas. Sua pele, muito clara. Suas unhas são grandes e seu cheiro não me deixavam dúvidas. Além de ler sua mente de vez em quando.
Pensei: "Nunca havia notado essas coisas." Acho que não fui muito discreto nesses últimos anos.
- Por que está chorando?
- Perdi um amor - sentou-se no chão da loja de eletrodomésticos.
- Sempre soube que você estava aqui. Além de sempre pegar pessoas que não estão muito felizes com suas vidas e mata-las. Vim até aqui para que você me seguisse e pudesse me transformar no que você é.
- Ai meu Deus, mais um maluco.
- Preciso da sua ajuda.
- Por que devo ajudá-lo?
Ele olhou para mim, mas uma vez enxugou suas lágrimas, cruzou os braços em cima dos joelhos e disse:
- Estou nessa seita para ajudar a me proteger. Eles costumam caçar vampiros, mas sou muito fraco e preferi treinar e controlar a minha mente até que me apaixonei. Ela era linda, perfeita. Cabelos loiros, longos. Ela me fascinava. Era nova integrante da seita. - abaixou a cabeça por um momento e começou a falar novamente - Eu nem imaginava que ela seria sacrificada. Isso me enlouqueceu. Não queria que ela morresse. Mas não pude evitar.
Enquanto ele contava o que havia acontecido, sentei-me ao seu lado. Tirei meus óculos e ficava olhando pra ele interessado.
- Ela foi usada como sacrifício a um demônio. Nunca pensei que isso acontecia lá, pois nunca vi acontecer nada parecido por lá. Então fugi. Estou longe deles há 3 dias. Sem comer, sem beber. Não tenho pra onde ir. Lá era meu lar.
- E por que quer que eu o transforme em vampiro?
- Com o seu poder poderia acabar com a seita e vingar a morte da minha amada.
- Você disse que eles também são caçadores de vampiros e você poderá morrer antes mesmo de cumprir sua promessa. É isso mesmo que você quer?
- Sim. Depois faço o que você quiser.
Ah, isso me deixou interessado. Estava mesmo precisando de uma companhia, mas não estava nem um pouco a fim de enfrentar caçadores. Já tinha anos que não via um caçador, e se eu o transformasse em vampiro eles também iriam atrás de mim. Refleti um pouco. Olhei pra ele. Ele chorava. Essa garota devia ser mesmo especial para ele ter se apaixonado com tanta rapidez e eu precisava mesmo de um pouco de emoção, além de uma companhia. Só não queria uma companhia masculina, queria mesmo uma linda mulher ao meu lado para caçarmos a noite toda até que o destino nos separassem. Mas... Pensei novamente: por que não? Podemos juntos acabar com esses caçadores idiotas.
Peguei em seu rosto com as minhas duas mãos. Fiquei olhando por um instante aqueles profundos olhos negros. Daria sim um belo vampiro, apesar de pequeno, magro e mal vestido. Virei sua cabeça para que eu pudesse ver melhor seu pescoço. Mordi sua jugular e sentia todo seu sangue pelo meu corpo. Todas as suas frustrações e sua vida passavam pra mim. Era delicioso sentir seu sangue jovem, ouvir seu coração bater. Sua cabeça curvou-se para trás. Olhava o sangue sair de seu pescoço. Eu estava admirado, excitado. Ele já estava quase sem fôlego, sem vida. Cortei meu pulso e dei para ele sugar-lhe. Sempre gosto de transformar alguém. O momento em que tem que sugar o meu sangue é a hora mais gostosa. Seu corpo jogou-se para trás. Tremia. Curvava-se. Ele estava se transformando na mesma criatura noturna que sou.
- Não se assuste com que acontece com o seu corpo. Isso é normal. Você está apenas morrendo.
Segurei-o nos meus braços para levá-lo para outro lugar. Já estávamos muito tempo ali.
- Não se preocupe. Teremos a vida toda para acabarmos com aqueles malditos caça-vampiros.

São Paulo, fevereido de 2002.

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