O Primeiro Conto
O Primeiro Conto

Estava ela diante do espelho, se olhando, admirando seu corpo nu, notando as mudanças ocorridas com a idade. No espelho, fotos colocadas da filha que não via há muito tempo. Uma mesinha com vários produtos de beleza e maquiagem, além bijuterias e um maço de cigarros.
Ela se preparava para mais um dia de trabalho. Estava cansada da vida que levava. Queria que tudo terminasse ali, mas tinha que seguir em frente.
Foi ate o armário e escolheu um belo vestido cor-de-rosa claro, curto, de alças bem finas, com decote nas costas de cetim. Tinha que estar bela naquela noite, porque talvez seria a última noite. Queria parar com tudo e mudar para uma outra cidade, começar uma vida nova.
Prendeu seus longos cabelos negros como um coque, colocou um par de brincos de brilhantes brancos que ganhou do último cliente, um correntinha de cruz, uma pulseira de brilhantes para combinar com os brincos e uma sandália prata de salto bem alto.
Tinha um corpo perfeito no auge de seus 36 anos. Sempre fora magra, e com a gravidez não engordara muito para que atrapalhasse sua silhueta. Boca bem carnuda e vermelha, olhos verdes amendoados e grandes, seios medianos, mas com o vestido dava-lhe um ar de seios grandes, o que atraia os homens, cintura fina e nenhuma barriga, pernas grossas e bem torneadas, poderia ter sido uma grande modelo se o destino não a tivesse colocado numa enrascada.
Casara muito cedo, pois engravidou. Nunca estudou, apenas tivera terminado o primeiro grau. Após o final de seu casamento, perdeu a guarda da filha e foi morar nas ruas. A única solução foi a prostituição. Nisso tivera sorte. Com o tempo podia escolher seus próprios clientes e cobrar deles o que quisesse, ganhava muito bem, morava num belo apartamento de três quartos, mas nunca mais vira sua filha. A foto que tinha no espelho era dela com uns 10 anos de idade, e nem imagina como ela deve estar hoje.
Tinha que trabalhar mais uma noite. Estava feliz porque era apenas uma festa. Tinha apenas que fazer companhia a um cliente muito antigo, não precisava dormir com ele, mas não estava nem um pouco animada. Iria apenas por causa do dinheiro, afinal era isso que a sustentava por mais de oito anos.
Uma limusine parou diante do edifício onde ela mora. Estava a sua espera. Entrou na limusine e pegou um frasco de brilho em sua bolsa para passar em seus lábios antes de chegar à festa. Queria estar deslumbrante, mesmo assim.
Era uma casa linda. Grande. Cheia da convidados. Artistas, cineastas, atrizes, atores, empresários e seu cliente: o anfitrião.
Ele era um homem bonito. Alto, magro, corpo bem esculturado pelos anos de academia, 46 anos, cabelos grisalhos, barba rala e grisalha também e um grande charuto em suas mãos. Usava um belo terno importado cor cinza claro. Estava feliz por vê-la sempre tão bela. Notara em seu rosto que ela não estava muito feliz. Pediu a ela que fosse a mais cordial possível, pois essa festa seria um evento muito importante.
Noite adentro. Madrugada. Cansada. Tinha conversado com todos na festa, falado os mais diversos assuntos, mas queria sumir, fingir ser alguém não era coisa que a mais agradava. Sem pedir ao seu cliente, pegou um táxi e foi para casa. No caminho resolvera descer do táxi e parar em um bar para beber sozinha e pensar. Ficou por lá por mais de meia hora. Bebendo e meditando. Queria outra vida. Queria poder fugir daquela cidade e encontrar sua filha, ela devia ter uns 18 anos agora. Tinha tanta raiva de seu ex-marido que às vezes tinha vontade de matá-lo. Mas sabia que não poderia fazer isso. Pensava: será que minha filha ira me aceitar desse jeito? Será que ela sabe o que eu faço para sobreviver? Não achava justo o que ele tinha lhe feito e se arrependia de nunca ter trabalhado e estudado para hoje ter uma vida mais digna. "Ah! Do que adianta tudo isso agora, não tenho mais como mudar o meu passado", pensou.
Resolvera caminhar até em casa. A noite estava bonita, com o céu claro, sem nuvens e com muitas estrelas. Apesar dessa vida dura, adorava trabalhar à noite, se sentia bem com a noite.
Caminhando, notou que estava sendo observada, mas não sabia por onde. Notara que já estava sozinha na rua, completamente deserta. Mas a sensação de estar sendo observada a incomodava muito. Será que estou sendo seguida? Apertou o passo e notou alguém atrás dela. Apenas um vulto, não poderia ver mais nada. Correu para poder chegar em casa o mais breve possível. De repente sentiu alguém puxar-lhe com força pelo seu braço. Notou que era um homem, mas não conseguira ver mais nada. Um golpe forte ela levou, desmaiara. Uma questão de segundos tudo aconteceu. Estava ela sozinha, num beco, deitada no chão. Levantou desesperada para ver se tinha lhe acontecido algo. Notara que sua roupa estava suja de sangue. Tentou procurar pelo seu corpo de onde vinha esse sangue. Mas nada. Olhou a bolsa para ver se tinha sido roubada, e nada. Foi para casa sem entender o que tinha acontecido.
Entrou no edifício onde mora sem ser vista, estava com muito sangue pelo corpo. Não queria confusão. Entrou em seu apartamento, trancou a porta e correu rapidamente para o banheiro e ver onde estava o ferimento. Olhou no espelho e viu que tinha um corte em seu pescoço. Não parava de sangrar. Abriu a torneira da pia e lavava a ferida freneticamente para tentar ver que corte tinha em seu pescoço. Pegou um algodão e pressionou o corte para estacar o sangue, enquanto se olhava no espelho, vendo seu vestido todo sujo de sangue e tentando entender porque aquele homem a atacou e não a matou. Tirou o algodão e notou que havia duas pequenas perfurações em seu pescoço. "Que arma teria sido esta?", pensou. Tirou a roupa, encheu a banheira de água morna, entrou na banheira e, ficou por lá algum tempo se recuperando do susto.
Após o banho, colocou uma camiseta e olhou novamente no espelho de seu quarto e examinou de novo a ferida.
Estava amanhecendo, estava cansada e precisava dormir. Ainda bem que não foi nada grave, disse para si mesma olhando o espelho.
No dia seguinte, ao acordar, notara que estava com muita fome, a fome era tanta que poderia matar um boi se precisasse. Levantou-se. Seu quarto estava escuro. Lembrara que fora deitar quando estava amanhecendo, o quarto deveria estar claro pelo sol. Olhou no relógio e viu que já passara das seis da tarde. "Será que dormi tudo isso?", indagou-se. Percebera que havia recados na sua secretária eletrônica. Assustada fora ouvir os recados. A maioria clientes querendo fazer um programa, outros cobranças, além da ligação de seu anfitrião querendo justificativas para sua saída repentina da festa. Ouvira todos recados com muita calma, mas não retornou nenhuma ligação. Permanecera sentada no sofá tentando lembrar o que tinha acontecido na noite anterior e porque acordara tão tarde, se não costuma beber muito.
Estava faminta. Foi até a cozinha para ver o que tinha na geladeira. Havia muitas coisas para comer, mas nada lhe agradara. Queria algo que a sustentasse por completo. Só não sabia dizer o quê.
Foi até o banheiro para lavar o rosto, afinal levantar tão depressa que nem pensou em fazer isso. Ao se olhar no espelho viu a ferida no pescoço. Agora lembrara que tinha acontecido na noite anterior. "Fora atacada por alguém, mas quem?", pensara.
O telefone estava tocando. Saiu do banheiro para atendê-lo na sala. Ao atender notou que o telefone estava mudo. O que poderia estar acontecendo. Assustada, olhava ao redor do apartamento, nada. Levantou-se para ir até seu quarto quando de repente a luz se acendeu. Lá estava um homem perto da sua cama. Ela deu um grito, perguntava como ele havia entrado ali, mas ele permanecia imóvel, fitando-a. Ela tentou sair correndo e fugir, mas num movimento rápido ele a impediu, ficando em frente à porta de entrada do apartamento olhando fixamente para ela, como os olhos bem abertos. Quando tentou gritar por socorro, o homem tampou-lhe a boca e fazia sinal de que fizesse silencio. Ela estava desesperada. "Como aquele homem poderia estar em seu apartamento e por que estava lá?", pensava.
Notara que era o homem que a atacou. Era muito bonito, apesar do susto. Pele muito branca que dava para ver suas veias, cabelos longos abaixo do queixo, lisos e castanhos, olhos grandes e acinzentados, nariz pequeno, boca de lábio inferior maior que o superior e bem vermelha, possuía dentes amarelados e notara que seus dentes caninos eram um pouco maiores que o normal. Vestia um casaco sobretudo cor preta, calça de couro, camisa branca, botas e tinha um crucifixo em seu pescoço. Ele ria muito para ela enquanto segurava sua boca para que ela não gritasse.
- Não irá mais gritar? - perguntou, ainda segurando sua boca. Com um gesto com a cabeça ela disse que não. Então ele soltou-lhe. Ela se afastou dele assustada.
- Como entrou aqui?
- Posso entrar em vários lugares.
- Mas o que faz aqui?
- Você me chamou.
- Eu?
- Exatamente.
Ela andava de um lado para o outro no apartamento, ora colocava a mão na cabeça ora colocava na cintura. Ele permanecia imóvel, olhando-a.
- Você tem pouco tempo de vida. Aposto que deve estar faminta, não?
- Estou faminta sim, como sabe?
- Eu sei.
- E como assim pouco tempo de vida?
- Você jamais poderá negar o que será, Jasmine.
- Como sabe meu nome?
- Já disse, você me chamou.
- Não chamei ninguém. Vai embora daqui.
Ele movimentou sua cabeça para o lado como se fosse dormir, fechou por uns instantes seus olhos e disse: - Só irei embora depois do que você decidir.
- Decidir? O quê?
- Se quer viver para sempre ou morrer para sempre.
- Não estou entendendo o que você esta dizendo.
- Está vendo essa ferida em seu pescoço?
Jasmine colocou a mão em seu pescoço, olhou para aquele homem, e começou a entrar em desespero.
- Meu nome é Lucian. Estou vivo por mais de 400 anos...
Ainda com a mão em seu pescoço, Jasmine sentou-se no sofá para prestar a atenção naquele homem que estava em seu apartamento.
- Sou isso mesmo que esta pensando. Um vampiro. - disse sentando-se perto dela - e vim aqui porque você me chamou. Essa ferida fui eu que fiz.
- Eu não te chamei. Por que diz que eu te chamei?
- Você não gosta dessa sua vida, não é?
- É... Mas...
- Posso te dar o que você mais deseja. Posso te dar a eternidade.
Jasmine não entendia nada. Como ele poderia saber de tantas coisas sobre sua vida?
- Você quer ver novamente sua filha, não quer?
- Claro que quero, mas ela jamais irá me aceitar como uma, uma...
- Prostituta. - completou Lucian. - E ainda poderá vingar-se de seu ex-marido sem ser condenada e ainda viver muito melhor do que vive hoje, mas terá que decidir, falta pouco tempo.
- Decidir o quê?
- Viver ou morrer?
- O que você quer dizer?
- Se eu deixá-la aqui irá morrer ao amanhecer, pois não terá o meu sangue para transformá-la no que sou, mas se quiser o meu sangue...
- Tá bem, tá bem, entendi. Preciso sugar o teu sangue para ser uma imortal igual a você, não é? E viver nesse mundo que você diz que é muito melhor do que o meu?
- Sim, mas também não poderá negar o que você será, Jasmine.
- Como assim?
- Ser um imortal implica algumas regras.
- Que regras? - As regras para ser um vampiro. Como dormir em caixões, não andar a luz do dia, se alimentar de sangue. Essas coisas.
- Espera um pouco. Você usa um crucifixo, como pode um vampiro usar crucifixo?
- Há muitas coisas a aprender sobre nós. O crucifixo ou a cruz nada nos faz. Uso este porque gosto de crucifixos. Você usava um crucifixo quando a ataquei, se algum mal ele fizesse a nós, eu não estaria aqui.
Jasmine levantou. Olhava Lucian sentado naquele sofá, com as suas roupas estranhas, observando como ele era assustador, mas ao mesmo tempo parecendo um anjo. Uma luz estranha emanava dele que a deixava fascinada.
- Preciso pensar. Não posso me decidir assim.
- Troque-se. Vamos aproveitar a noite. E vou lhe mostrar o que há de bom em ser o que sou. Assim terá algo a mais para pensar, Jasmine. Eu espero, eu posso esperar. Já você...
Ela foi para seu quarto. Pegou uma calça jeans, uma camiseta branca e um tênis. Deixou os cabelos longos e negros, soltos. Passou um brilho nos lábios, pegou uma bolsa, tipo sacola, também jeans, colocou dentro alguns objetos, carteira e dinheiro. Voltou para sala.
- Dinheiro será o menor dos problemas que terá para se preocupar, Jasmine.
- Vamos. Quero ver o que você tem a me mostrar.
Os dois saíram do apartamento, e foram andar pela cidade. Um do lado do outro. Ninguém percebia nada. Ninguém notara que ele era um vampiro.
- Estamos andando pela cidade há horas e você até agora não me mostrou nada.
- Calma. Espero o momento oportuno, apenas.
Entraram num beco, muito parecido com aquele que ela tinha sido atacada por ele. Ele pediu silêncio, que ela encostasse-se a uma parede e que se escondesse entre as sombras. Ele fez o mesmo em outro lugar. Por um instante ela o perdeu de vista. Seria um ótimo momento para fugir dele, mas não fizera porque sabia que ele podia alcançá-la. Ficou ali esperando o que ele iria fazer.
Um rapaz, mais ou menos de 18 anos, bêbado, segurando uma garrafada, entrou no beco. Jasmine pensou em avisá-lo do perigo, mas algo a segurava naquela parede. De repente, Lucian avançou no garoto. O rapaz se debatia, gritava, mas tudo foi muito rápido. Já estava morto cheio de sangue. Jasmine se aproximou de Lucian. Ele estava ajoelhado ao chão segurando o rapaz com o pescoço esfolado por seus dentes. Lucian olhou para ela, com os lábios cheios de sangue:
- Você não poderá negar o que você será, Jasmine.
Jasmine olhava, estática para aquela cena. Desesperada, saiu correndo para bem longe, gritando e chorando. Não acreditava que isso estava acontecendo com ela.
- Você jamais irá negar o que você será, Jasmine! - gritava Lucian, enquanto ela corria fugindo dele - Jamais!

São Paulo, 15 de janeiro 2002.

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