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Algo
de inusitado aconteceu comigo. Algo que somente agora poderei
contar para vocês.
Sempre fui uma pessoa curiosa, sempre quis saber qual o sentido
da minha vida, da minha existência. Fui batizada na igreja
Católica, mas sempre acreditei que haveria algo a mais que
pudesse responder as minhas dúvidas.
Aos oito anos de idade resolvi ler coisas sobre o ocultismo.
Sim, comecei cedo, mas não importava nada com isso, e fazia
tudo às escondidas, pois a minha família era muito religiosa,
e não queria que eles achassem que eu estava interessada em
coisas do "demônio".
Sempre fui muito romântica, e sempre acreditei na possibilidade
de encontrar o meu príncipe encantado, e por causa disso me
envolvi com Wicca. Fui tola em algumas situações, fiz algumas
besteiras também, mas foi através dessa religião que pude
desenvolver alguns potenciais que até então eu desconhecia,
coisas do tipo: viagem astral, vibração energética, aumento
da intuição, entre outras coisas, mas nunca desenvolvi a capacidade
de ler a mente das pessoas, talvez isso tenha sido meu maior
problema para o que enfrentei, e que hoje estou aqui para
contar-lhes.
Aos 16 anos, no auge da minha adolescência e da minha beleza,
passava boa parte do meu tempo com as minhas amigas na procura
incessante pelo amor. Meus cabelos eram longos, lisos e pretos,
os quais se escorriam pelo meu corpo, dando um pequeno ar
"hippie". Olhos pretos como a noite, pele branca como a Lua.
Algumas pessoas viviam me dizendo isso. Sempre fui magra,
nunca tive problemas com a minha alimentação, então não me
preocupava com dietas, mas eu tinha um pequeno defeito: eu
era fumante!
Numa dessas noites quentes de São Paulo, eu e algumas amigas
fomos para uma danceteria da cidade, do tipo "underground",
com pessoas vestidas de preto e ouvindo músicas do The Cult
e The Cure, bebendo muita cerveja e fumando muito. Uns fumavam
maconha, outros apenas cigarro. Eu curtia mesmo o meu cigarro
e minha cervejinha.
Eu usava uma camiseta preta de mangas curtas, calça jeans
escura, bota tipo coturno, e sempre com o meu pentagrama pendurado
no pescoço. Sempre deixava meus cabelos soltos, era uma estratégia
para atrair os rapazes, afinal sempre ouvi histórias que eles
adoram mulheres de cabelos compridos. Nunca gostei de maquiagem,
então sempre usava um batom vermelho, o que criava um certo
ar andrógino em mim.
Na verdade nunca me achei bonita, mas os outros me achavam.
Passava boa parte do meu tempo me escondendo das pessoas,
mesmo quando estava em grupo. Falava pouco e nunca me apresentava
a ninguém. Minhas amigas diziam que era por causa disso que
eu não arrumava um namorado, e que só quebrava a cara, mas
eu dizia que isso era mais forte do que eu e não conseguia
mudar isso em mim.
Olhei pra pista de dança e fiquei com uma vontade tremenda
de dançar, nunca gostava de ir dançar, tinha vergonha, mas
neste dia parecia que algo me impulsionava a fazer isso. E
então lá fui eu, sozinha.
Como nunca tinha o costume de dançar, fiquei por algum tempo
olhando as pessoas dançarem para poder eu imitá-las. E foi
o que eu fiz. Fiquei dançando por horas, estava adorando aquela
sensação.
Durante uma balançada de corpo aqui e outra ali, avistei alguém
perto do bar que me deixou completamente paralisada: era um
rapaz com a idade entre 18 e 19 anos. Pele branca e alva,
a qual podia ver pequenas veias pelo seu rosto e braços. Olhos
azuis penetrantes. Seu cabelo era liso, levemente sem corte,
onde alguns fios caíam sobre a testa, lembrando um pouco os
integrantes do The Beatles. Seu rosto era meio feminino, mas
não tinha jeito de mulher, para mim parecia o homem certo,
ou melhor, o garoto certo. Seus lábios eram bem vermelhos,
parecia que usava batom, mas não usava. Estava todo de preto:
calça, sapatos, camiseta e um sobretudo, todos pretos. Usava
vários anéis, mas eu não conseguia identificar o que eram
aqueles símbolos, estava uma distância razoável dele. Ele
conversava com duas meninas lindas, o que me deixou triste.
"Jamais ele iria se aproximar de mim", pensei. Até que ele
me olhou, me viu por entre a multidão que me circulava na
pista e ficou me encarando. Fiquei paralisada, meu coração
disparou e comecei a suar frio. Desviei o olhar dele, por
vergonha, e voltei a dançar.
Olhei novamente rapidamente para ver se ele ainda estava por
lá, mas não estava. Fiquei procurando por toda a danceteria,
e nada.
De repente senti alguém me abraçar por trás. Era ele. Deixei
que ele me abraçasse e ficamos dançando assim por alguns minutos,
sem dizermos uma única palavra. Sentia seu corpo quente perto
do meu, e isso me deixava amparada, aliviada. Seus lábios
passaram pelo meu pescoço, com leves beijos doces e suaves.
Ele me virou e me beijou na boca com tanta intensidade que
pensei que ia desmaiar.
- Procuro por você há muito tempo! - disse acariciando meu
rosto.
Apenas sorri e o abracei, não queria que aquilo terminasse
nunca. No meio daquela pista e com aquelas músicas frenéticas,
ficamos dançando abraçados, como se tivesse rolando uma música
lenta, só para nós dois. Por uma fração de segundo, me vi
completamente sozinha com ele naquele lugar, mas quando dei
por mim, estávamos novamente na danceteria.
Tudo foi muito rápido e começamos a namorar. Ele sempre foi
misterioso, nunca falava dele pra mim, mas eu não importava,
acreditava que tinha encontrado o "amor da minha vida".
Foram dois meses de encontros diários, nunca ficamos um dia
sequer separados. Mas uma coisa me deixava ainda mais intrigada
com ele. Queria poder amá-lo de verdade, mas ele sempre me
evitava. Ele era o homem da minha vida, por que não poder
perder a virgindade com ele?, me indagava sempre. Ele só dizia
que no momento certo esse dia iria chegar e que eu deveria
ter paciência.
E aqueles anéis, eram outra coisa que me deixava aflita, pois
ele nunca me falava do que se tratavam aqueles símbolos. O
que eu só pude entender o que eram mais tarde.
Um dia ele me convidou para uma festa para que eu pudesse
conhecer os amigos dele, porque até então eu não os conhecia.
Ele dizia que seria o melhor momento da minha vida e da vida
dele, e que eu devia esta bela, porque seria um momento muito
especial. Só estranhei porque ele me pediu que fosse de vestido
preto à festa, e como não tinha vestidos, pois nunca gostei
de usá-los, tive que comprar um às pressas.
Minha irmã mais velha me ajudou a escolher o vestido. Comprei
um belo vestido de cetim preto, longo até os pés e com alças
finas. Uma bela sandália preta com um pequeno salto. Nunca
fui boa em usar saltos.
Na noite da festa me preparei toda. Prendi meu cabelo no alto
da cabeça, deixando alguns fios caírem sobre a minha testa
e pescoço. Maquiei-me, ou melhor, minha irmã me maquiou, coloquei
meu vestido novo, me perfumei e não me desgrudei do meu pentagrama.
De uma certa forma, me sentia protegida com ele.
Ele foi me buscar. Estava lindo. Vestia um belo smoking preto.
Seus cabelos estavam penteados pra trás e com gel.
Deu-me um leve beijo no meu rosto e disse:
- Tire esse pingente! Não quero que você use-o.
- Por quê? Eu sempre usei e você nunca reclamou!
- Não importa! Hoje você não deverá usá-lo.
Senti um leve arrepio nas costas, mas fiz o que ele me pediu:
tirei o pingente e o deixei em casa.
No caminho fiquei pensando porquê ele me pediu isso, e também
por ele nem ter reparado em mim. Tinha caprichado no meu visual
e ele nem me elogiou, sem contar o beijo no rosto. "Por quê?",
pensava.
Era uma bela casa, na verdade uma mansão. Havia muita gente
por lá. Muitos eram mais velhos que ele, o que achei estranho.
"Como poderia um rapaz de 19 anos ter tantos amigos tão velhos?",
pensava.
Ele me apresentou para todos na casa, tudo com muita gentileza,
parecia outra pessoa. O estranho é que o tempo todo sentia
aquele arrepio nas costas, mas parecia que tudo tinha se bloqueado
em mim. Apenas deixei que a noite fluísse para que eu pudesse
curtir a festa.
No meio da madrugada ele veio com sorriso nos lábios, me abraçou
fortemente e me beijou.
- Sua vontade será feita hoje!
- Do que você está falando? - perguntei assustada.
- Poderei amá-la do jeito que você quer.
Não pensei duas vezes e fui com ele para um grande quarto.
Havia uma cama redonda no meio do quarto. Tudo estava revestido
de vermelho e preto. Os lençóis, as almofadas, os tapetes,
as cortinas. Não importei, só queria ele pra mim.
- Deite-se na cama, logo irei até lá, mas não tire o vestido!
- disse apagando as luzes.
Achei o pedido dele estranho, mas obedeci. Senti uma mão gelada
tocar as minhas pernas. Era ele, pedindo para que eu não estranhasse
isso, alegando que estava tão nervoso quanto eu. Tirou minha
calcinha e ficou me acariciando.
De repente algumas velas se acenderam do nada, como mágica.
E me vi deitada na cama, com ele cima de mim e mais quatro
homens encapuzados de preto em volta da cama. Tentei sair
de lá, mas cada um daqueles homens me pegou e amarrou meus
braços e pernas. Comecei a gritar, pedia para ele me dizer
o que estava acontecendo e ele sempre fazia sinal para que
eu me calasse.
- Você queria me amar? Pois hoje será seu grande dia, ou melhor,
sua grande noite - e ria como um demônio. Seus olhos estavam
vermelhos e brilhantes como o fogo.
Outras pessoas entraram no quarto, todas encapuzadas, com
velas nas mãos dizendo palavras estranhas. Enquanto eu olhava
aquelas pessoas, assustada, ele me penetrou com muita força
que eu gritei de dor. Pedia para que ele parasse, mas ele
não me ouvia, e forçava ainda mais. A dor era imensa, já não
sabia se gritava de dor ou de desespero por estar ali. E aquelas
pessoas ficavam falando e falando, o que me deixava mais assustada.
- Pára! Pára! Pelo amor de Deus! - gritava pra ele.
- Tsc, tsc. Não use o nome de seu Deus, ele não poderá salvá-la
agora.
Ele transou comigo sem a minha permissão e foi até o fim.
Pude sentir todo o prazer que ele sentiu com isso. Seu gozo
fluía todo para dentro de mim. Mas isso era só o começo, o
pior estava por vir.
Uma daquelas pessoas que estavam assistindo veio até ele e
lhe entregou uma pequena adaga de prata. Eu gritava mais forte,
tão forte que por um momento fiquei sem voz. Comecei a chorar
baixinho e rezava com intenção de que as orações poderiam
me ajudar.
Ele cortou meus pulsos e meus tornozelos e, ficou dizendo
palavras estranhas apontando a lâmina da adaga para mim.
Tudo foi muito rápido. Senti a adaga entrando com força em
eu peito. Já estava tão cansada daquilo que a dor apenas veio
como alívio, mas eu ainda estava consciente. Pude vê-lo pegar
um dos meus pulsos cortados e colocar o meu sangue num cálice,
também de prata. Levantou-se com ele na mão, mostrou-lhe para
todos que estavam a nossa volta, todos o saudavam, e ele começou
a beber o sangue. Depois ria muito, como um monstro.
Nesse instante desmaiei. Tudo escureceu, mas percebi que ainda
estava lá, só que estava flutuando e vendo toda a cena lá
de cima, próxima do teto.
"Por que isso aconteceu, comigo? O que eu fiz de errado?",
pensei.
Olhei para mim mesma e vi todo o meu corpo escuro, com aparência
de velho e enrugado. Meus cabelos estavam completamente brancos
e secos como palha. Minha alma estava condenada por causa
de um maldito seguidor do diabo.
Notei que havia outras mulheres como eu flutuando naquele
quarto também. Umas estavam chorando, outras pareciam ter
fogo nos olhos, o tamanho o ódio que elas tinham dentro delas.
- Quem são vocês? - perguntei para uma delas.
- Somos as vítimas que esse infeliz fez!
- Você não sabe quem ele é? - disse outra mulher.
- Não! Pensei que ele me amasse!
- Ele faz isso com todas! Sacrifica mulheres virgens para
seu mestre! Ele é filho do demônio!
Fiquei atônita com aquilo, não pude acreditar que fui sacrificada
para um demônio. Sempre fui uma pessoa do bem, não entendia
isso.
- Você não tem nada que entender isso. Estamos todas condenadas
a viver assim, feias, velhas e vagarmos aqui na Terra.
- Não! Isso não! - disse com raiva.
Depois de tantos anos de estudos sobre o ocultismo, pude perceber
que o canal dele para receber entidades ainda estava aberto
e que eu poderia tomar o corpo dele. E foi o que eu fiz. Penetrei
seu corpo com toda a força do meu espírito. Éramos duas almas
brigando pelo mesmo corpo. Ele gritava, pedia socorro às pessoas
que estavam lá, mas ninguém se manifestou, ficaram apenas
olhando para nós assustados.
- Você não vai escapar dessa, seu desgraçado! - peguei a adaga
que ainda se encontrava na cama e enfiei com toda a minha
força no peito dele. Eu estava matando-o, e usando seu próprio
corpo pra isso.
- Morra, seu desgraçado! Seu filho da puta!
Algo me jogou para fora do corpo dele, e pude ver várias entidades
demoníacas que flutuavam em volta de seu corpo, todas gritavam
e pediam socorro, mas não conseguiram salvar o corpo dele.
Fiquei observando-o até que ele morresse e que todas as entidades
fossem embora.
Minha respiração estava ofegante, e eu também estava muito
cansada, parecia que tinha perdido todas as minhas energias.
Já não estava mais naquele quarto, estava numa sala branca
e bem iluminada. Olhei a minha volta e vi aquelas mulheres
que estavam comigo e percebi que todas não estavam mais com
aquela aparência horrível de antes, inclusive eu. Todas vieram
até mim para me agradecer, umas beijavam minhas mãos outras
beijavam os meus pés. Tinha derrotado o demônio que me matou!
Hoje cuido de almas perdidas, almas que também foram sacrificadas
de alguma forma. Sei que nascerei em breve, ainda tenho coisas
a resolver na Terra, e estou esperando ansiosa por isso. Só
me entristece porque quando eu nascer novamente não lembrarei
de nada o que aprendi aqui e nada do que me aconteceu com
aquele rapaz, mas sempre saberei que o meu livre-arbítrio
é o que me rege e é nele que devo confiar.
FIM
São
Paulo, 5 de setembro de 2002.
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