Morrer para a vida eterna
Morrer para a vida eterna

Era inacreditável tê-lo tão perto de mim depois de quase um ano de conversas por e-mails e trocas de fotos e cartas. Desde a primeira vez que vi sua foto queria beijá-lo, abraçá-lo e amá-lo por muitos anos.
Tudo aconteceu de forma repentina: eu trabalhava há muitos anos com pesquisas e com a nova tecnologia da internet, esse meio se tornou uma ferramenta muito importante para o meu dia-a-dia. Praticamente passava quatorze horas por dia em frente ao computador, na net, raramente lia um livro ou até mesmo atendia ao telefone, já que todo o meu contato era feito por e-mails.
Um dia, logo pela manhã, vi que havia em minha caixa postal um e-mail intitulado "Amor da minha vida". Abri-o antes de todos os outros, que eram muitos. Notei que era uma declaração de amor, mas ele - a pessoa que assinava o e-mail usava o pseudômino de Vampiro Apaixonado - tinha enviado para mim e logo percebi que tinha encaminhado o e-mail para o endereço errado. Resolvi, então, retornar o e-mail para ele explicando que ele havia se enganado, que eu não era essa pessoa, a qual ele chamava de Helena, mas que tinha gostado muito da declaração e que essa Helena devia ser mesmo uma mulher de muita sorte.
Uns dois dias depois, numa noite fria de São Paulo, eu estava em casa e exausta por um longo dia de trabalho, mas mesmo assim o vício falou mais alto e resolvi entrar na net e o Vampiro Apaixonado havia me enviado outra resposta.
Dizia que ficou lisonjeado com o meu e-mail, e que gostaria muito de me conhecer e trocarmos mensagens. Fiquei surpresa por que pensei que Helena fosse uma mulher muito importante pra ele. Pensei que ele estava mesmo era fazendo jogo, que tinha enviado aquele e-mail de propósito para mim só para ver o que iria acontecer.
Depois de muitos e-mails trocados, descobri que seu nome era Vladimir, que morava no Rio de Janeiro e que seu relacionamento com Helena não estava muito bom. E eu, como estava sozinha por quase dois anos, fiquei entusiasmada com ele, mesmo sabendo que a distância poderia ser um problema para nós. Ele usava esse pseudômino "Vampiro Apaixonado" alegando que adorava os vampiros e que era apaixonado pelas mulheres.
Cada dia que passava eu ficava ainda mais apaixonada por ele. Seus e-mails eram doces, sublimes e cheios de paixão. Quando vi sua foto, como já disse no início, foi o auge da minha paixão: queria ele só pra mim. Mas eu estava impossibilitada de viajar, precisava terminar as minhas pesquisas e tinha pouca grana, porque também estava comprando um apartamento. Sei que viajar para o Rio não sai caro, mas eu estava mesmo passando uma fase de "vacas magras", e só ele podia vir pra cá.
Toda vez que programávamos sua vinda pra cá, sempre acontecia algo que não dava certo. E isso foi durante um ano. Nosso contato mesmo era por telefone e e-mails, e por algumas vezes trocávamos cartas pelo correio.
Chegou o grande dia, ou melhor, a grande noite. Como já estava morando em meu novo apartamento, quase não tinha móveis lá, muito menos sofás, então providenciei um lindo lençol vermelho e várias almofadas, de diversos tamanhos e decorei toda a minha sala para recebê-lo.
Deixei uma champanhe gelando, porque tínhamos muito o que comemorar. Coloquei o meu melhor vestido. Um longo, preto de alcinhas, com vasto decote nas costas, bem justo ao meu corpo, deixando meus grandes seios ainda mais avantajados. Um pequeno par de brincos brilhantes, uma correntinha de prata com um pingente e uma pulseira de brilhantes também. E uma sandália de salto, de couro preto.
Passei o dia todo no salão de beleza. Como Vladimir me disse uma vez que adora mulheres de cabelos curtos, resolvi deixar os meus cabelos me curtinhos e também os pintei de preto, para realçar ainda mais meus olhos verdes.
Cada minuto que se aproximava de sua chegava, eu ficava ainda mais ansiosa. Estava prestes a conhecer o homem da minha vida, e passar a noite toda com ele entre beijos e abraços e, fazendo amor. Quando a campanhia tocou tomei um susto, meu coração disparou, as minhas mãos suavam. Estava completamente nervosa.
Ao abrir a porta, vi Vladimir muito mais belo do que naquelas fotos. Ele olhava para mim com um leve sorriso em seu rosto. Ele usava um belo terno azul escuro, uma camisa azul um pouco mais clara e uma gravata da cor do terno. Sapatos pretos. Apesar dele ser baixo, aquela roupa dava-lhe um ar de um homem forte, alto e lindo. Seu cabelo era bem curto, seus olhos amendoados me olhavam como se me despissem. Carregava um grande buquê de rosas vermelhas.
- Não vai me convidar pra entrar? - perguntou Vladimir me estendendo as flores.
- Claro! Desculpe-me, é que...
- Você é mais linda do que nas fotos, minha linda. - sua voz era rouca, suave, doce e com um leve sotaque carioca, o qual me deixava mais empolgada com ele. - Notei que você cortou o cabelo.
- É... Fiz isso pra você.
- Linda. Simplesmente linda.
Vladimir aproximou-se de mim e me beijou. Seu beijo tinha um leve sabor adocicado, e era intenso, profundo. Meu corpo tremia.
Era um sonho ele estar ali, a minha frente, no meu apartamento e me dando um beijo que nunca havia sentido antes. Naquele momento percebi que queria ser sua para sempre.
Nos deitamos no lençol, entre as almofadas e ficamos nos acariciando, nos olhando com paixão e intensidade. Seu olhar era penetrante, provocante e ao mesmo tempo misterioso. Aquilo me deixava mais fascinada, parecia que mesmo depois de um ano de trocas de e-mails, eu não sabia nada sobre ele.
Ele foi me despindo bem devagar, enquanto beijava meu corpo. Ele também tirava sua roupa, e tudo foi tão rápido, que em questão de segundos, nós estávamos nus, e ele já estava em cima de mim.
Seu corpo era forte, apesar de magro, sua pele era dura e fria, mas seu cheiro era bom, bom como flores do campo.
Enquanto transávamos, ele me beijava muito, e cada vez que ele me beijava, seu beijo se tornava mais forte e mais violento. Por um momento estranhei essa atitude, mas eu queria mais, queria sentir o prazer do sexo que eu não sentia há muito tempo, e ele era o homem que eu queira que me proporcionasse isso.
Senti uma forte mordida em meu pescoço. Dor e prazer se misturavam, mas eu gostava daquilo até que ele se levantou e olhou para mim com o meu sangue em sua boca. Eu comecei a gritar feito uma louca, queria tirar ele de cima de mim. Com uma das mãos ele segurou os meus braços e com a outra mão ele tampava a minha boca para que eu parasse de gritar.
- Não se assuste. Você não quer viver comigo eternamente? - Vladimir dizia com fugacidade e com os olhos brilhando, quase amarelados e tão modificados que ele ficaram.
Eu não sabia o que fazer, mesmo naquela situação doida, e com seus lábios cheios de sangue, eu queria ser dele pra sempre.
- Eu sou um vampiro, minha linda. Você pode ser minha para sempre. Promete que quando eu tirar a minha mão da sua boca você não vai gritar?
Movimentei a minha cabeça dizendo que sim. Vladimir foi tirando a mão bem devagar. Eu estava ofegante, em desespero.
- Eu menti pra você, eu sei, mas nunca te enganei quanto ao meu interesse por vampiros, porque sou um deles. Estou aqui para você, e só você pode decidir se quer viver comigo para sempre.
Eu nunca pensei em viver no escuro, matar pessoas, e ainda não poder morrer sem que alguém faça isso por mim, ou que eu mesma pule numa fogueira e elimine a minha existência na terra, mas nunca conheci um homem como Vladimir e estava mesmo disposta a viver com ele eternamente até que as nossas vidas nos separassem.
- Sim, eu quero. - disse quase sem fôlego, sem vida.
Vladimir soltou meus braços, cortou seus próprios lábios e me beijou. Seu sangue fluía para dentro do meu corpo, era como se ele tivesse entrando em mim, como se a vida de Vladimir fosse parte de mim. Enquanto o sangue fluía, Vladimir não parou de fazer amor comigo, e eu fui sentindo meu corpo endurecer, morrer. Eu estava morrendo sim, morrendo para vida eterna.

FIM

São Paulo, 15 de maio de 2002.

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