Linda e Bela
Linda e Bela

Já não agüentava mais a solidão que me rondava nestes últimos anos. Todas a minhas tentativas de ter um relacionamento com uma mulher foram em vão.
Cada mulher tem algo diferente a oferecer, mas que nem sempre são coisas boas e que eu esteja mesmo disposto a acatar. Umas querem casar, outras apenas namorar, algumas só querem sexo, outras só pensam no trabalho...Já estava mesmo de saco cheio disso. Acho que esse negócio de alma gêmea é coisa de maluco mesmo, mas não sei porquê, eu estou à procura da minha amada.
Estava eu em um boteco na grande São Paulo de madrugada. Não era muito tarde, mas já se passava da meia noite. Estava sentado ao balcão do bar, observando a quantidade de homens que estavam lá. Nunca consigo entender porquê tantos homens ficam num boteco de madrugada, bebendo, jogando sinuca ou vendo futebol na TV. Era primeira vez que estava num lugar desses, mas já vi muitos assim nas minhas noitadas pela cidade. Eu estava deprimido. Queria me divertir, ms estava muito difícil.
Como já disse, eu estava apenas sentado ao balcão observando as pessoas. Havia uma TV presa à parede, na qual rolava um programa de entrevistas, mas ninguém estava mesmo prestando atenção, por isso estava sem som, somente com a imagem. Uns três rapazes estavam jogando sinuca. Falavam alto e bebiam muito, às vezes isso chegava a me irritar. Um deles vestida uma camisa xadrez vermelha de veludo, uma boina cinza, uma calça jeans velha, cinto preto de couro e tênis. Sua pela era escura, quase negra. Tinha um ar de malandro e era o que mais falava no jogo. Os outros dois eram garotos, um devia ter uns 19 anos e outro uns 15.
Perto de mim havia uma mesa cheia de homens, várias garrafas de cerveja vazias, alguns pratos com petiscos e muita bagunça. O assunto era suas mulheres, às vezes falavam do futebol que jogaram, no jogo que rolou na TV semana passada, do chefe que pega no pé de alguém, etc.
Ao meu lado havia outro homem que aparentemente também se sentia solitário. Bebia uma cerveja e olhava pra TV de vez em quando, às vezes pra mim e às vezes conversava com o barman (se é que nesse lugar posso chamar o cara de barman). Ele tinha os cabelos grisalhos, quase brancos. Eram longos até os ombros, mas possuía uma pequena calvície próxima a testa. Usava uma camisa branca e amarrotada. Uma calça cáqui, sinto de couro e sapatos marrom. Pele branca e levemente enrugada pelo tempo. Usava uma barba rala quase branca. Seus olhos eram verdes e tristes. Uma vez ou outra dizia alguma coisa pra mim, algo sobre a vida ser dura e difícil, mas eu nem lhe dava ouvidos.
Paguei a minha conta, despedi do meu companheiro ao lado, e resolvi caminhar. Ao sair do boteco notei que estava chovendo. Não era uma chuva forte, mas dava pra molhar muito a roupa. Não esquentei a cabeça e resolvi andar pelas ruas desertas e na chuva assim mesmo, para pensar.
Aquela última mulher que passou pela minha vida me deixou muito chateado. Fazia de tudo por ela. Fiz dela uma grande mulher. Uma mulher de negócios. Saiu de uma família pobre do subúrbio de São Paulo para se tornar uma das executivas mais bem sucedida da cidade, ou até mesmo do Brasil. Mas me abandonou quando o dinheiro subiu à sua cabeça. Chutou-me como se eu fosse uma latinha de cerveja vazia e amassada. Foi horrível. Agora estou aqui sozinho e na fossa pensando nela.
Perdi a noção do tempo que eu estava andando por São Paulo quando percebi que estava próximo a uma praça. Resolvi ir até a praça para me sentar e pensar mais um pouco quando de repente vi algo que me deixou fascinado.
Uma linda e bela garota dançando sob a chuva. Ela devia ter uns 19 anos, mas mesmo assim fiquei apaixonado pelo o que via. Ela ria olhando para o céu, deixando as gotas da chuva molhar todo o seu corpo pequeno e branco. Vestia um lindo vestido de alcinhas com estampa de pequenas flores brancas e com o fundo vermelho. Rodava e rodava com os braços erguidos pra o céu. Estava descalça e segurava suas sandálias de plástico em uma das mãos, seus pés eram pequenos e delicados. Seus cabelos estavam presos, eram negros e levemente ondulados. Seus lábios eram finos e vermelhos. Não podia ver a cor de seus olhos, pois estavam fechados, curtindo a água que caía sobre seu rosto. Sentei-me num banco para contemplá-la. Fiquei a observá-la por alguns minutos quando ela parou com aquela dança encantadora e olhou pra mim timidamente colocando uma das mãos sobre sua boca e sorrindo pra mim. Ela devia saber que eu estava lá algum tempo, por isso ficou dançando pra mim. Mas eu não me importava com aquilo, apenas tinha a achado linda demais. Ela começou a se aproximar de mim, colocando um pé na frente do outro bem devagar. Tocava seu vestido como se estivesse arrumando-o. Ao chegar perto de mim tocou meu rosto e se ajoelhou a minha frente, deixando suas sandálias de lado ao chão. Agora que pude ver seu rosto de perto, pude perceber que seus olhos eram negros como a noite na qual nos encontrávamos. Ela sorriu pra mim e pegou a minha mão esquerda pra eu tocar o seu belo rosto.
Por alguns momentos ela beijava a minha mão. Eu estava fascinado. Ela era linda. Curvei-me mais próximo dela e dei-lhe um beijo prolongado. Seu beijo era doce, suave, com amor.
- Esperei todos esses anos por você, Lucian! - ela disse.
Não entendia como ela sabia meu nome e por que esperou tantos anos por mim.
- Sei que não posso ser como você se não tiver idade suficiente. Mas quero viver com você pra sempre. Quero ser sua alma gêmea. Quero ser sua amante, sua amada, sua alegria. Por isso te esperei tanto. Agora sei que posso ser sua pra sempre.
Sua voz era doce e suave. E o que ela me dizia me comovia ainda mais. Ela estava mesmo disposta a viver uma eternidade comigo e isso me deixava tranqüilo, pois encontrei aquela que quer ser minha pra sempre. O cheiro de seu sangue me deixava ainda mais louco de vontade de sugá-la e torná-la uma vampira como eu.
Ela curvou sua cabeça pra direita e mostrou seu pescoço. A chuva ainda caía e estava forte. Usava uma pequena corrente prateada com um crucifixo de pedras vermelhas. Toquei seu rosto, seus lábios e depois o seu pescoço. Por mais uma vez beijei seus lábios.
Toque e olhei novamente para o seu belo rosto e sorri.

São Paulo, 28 de fevereiro de 2002.

 
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