Angel Ângelus
Angel Ângelus
 

Por muito tempo tentei entender a minha existência, dos por quês de tudo o que aconteceu comigo até hoje. Fiquei por algumas horas caminhando sem rumo, numa estrada deserta e desconhecida, pensando nessas coisas, matutando acontecimentos e fatos ocorridos comigo, sem chegar a nenhuma conclusão, solução ou aprendizado.
Avistei a minha frente, naquela estrada, sem ter certeza para onde eu estava indo, uma pequena capela, daquelas que a gente só vê em filmes ou novelas, daquelas que parecem do interior, ou de uma população mais simples e humilde. A porta estava aberta, então resolvi entrar.
Ela era pequena, toda pintada de branco, com bancos de madeira escura vernizados, os pilares que sustentavam o teto eram também de madeira, mas estavam pintados num azul bem claro. O altar era simples: uma toalha de renda branca cobria-o, sobre ele tinha uma bela imagem de Jesus Cristo ressuscitado, com o coração exposto ao corpo, pequenas velas brancas acesas, dois cálices e um incensário de prata. Atrás do altar, no peitoril da parede havia uma imagem da Nossa Senhora Aparecida, muito maior que a imagem de Cristo, como se estivesse abençoando-o.
Sentei-me em um dos bancos de madeira quase em frente à imagem de Cristo e fiquei pensando nos por quês de ser o que sou hoje. "Deus não pode ter feito o que fez comigo, mas nem o Diabo, então o que foi que me fez o que sou hoje?", pensava angustiado, chorando poucas lágrimas de sangue. Resolvi me ajoelhar mais próximo do altar e chorava ainda mais, sem controle, procurando por respostas às minhas perguntas, quando ouvi uma suave e doce voz:
- Lucian...
Ao olhar pra trás vi a imagem mais linda já vista até hoje, depois de quatro séculos de existência. Uma bela mulher flutuava próximo à porta de entrada da capela, vestia um vestido branco que esvoaçava com luzes brancas e amarelas bem fortes, seus pés não tocavam o chão, seu rosto era pequeno, andrógeno, com olhos cor de mel e cabelos longos até a cintura, ondulados e pretos. Fiquei extasiado com aquilo que via, mas perguntei:
- Quem é você? - Ao me dirigir a palavra à ela, sua luz foi diminuindo, tornando somente o vestido que usava e tocando seus belos e pequenos pés ao chão. Eu ainda estava ajoelhado e ela se aproximava de mim, com passos largos e lentos.
- Sou seu anjo da guarda, Lucian. - falava tocando meu rosto, tirando um pouco das lágrimas de sangue que corriam sobre ele.
- Anjo da guarda? Não posso ter um anjo da guarda... - levantei-me bruscamente, pois estava surpreso e ao mesmo tempo sentindo uma raiva tremenda dentro do meu coração.
- Claro que pode ter um anjo da guarda, meu querido Lucian. Todos os seres aqui na Terra têm o seu, e eu sou o seu anjo.
- Mas...mas... você é uma mulher, aliás uma bela mulher para ser um anjo...
- O anjo pode aparecer de qualquer forma. E apareço para você da forma que você me imaginou... Sempre.
Olhei em volta de mim, olhei para minhas roupas maltrapilhas, coloquei a mão sobre meu rosto, senti meus cabelos, tentei ver se não estava sonhando, se aquilo também não era fruto da minha imaginação, já que estava naquela capela tentando conversar com Deus.
- Sim, Lucian... Deus ouviu você. - disse com a voz ainda mais doce, mais suave.
- Como assim?
- Talvez você tenha razão quando diz que não pertence a Deus ou ao Diabo, mas uma coisa tenho certeza, você foi criado para um propósito aqui na Terra.
- Que propósito? - perguntei angustiado, sem entender nada do que ela ou ele falava pra mim.
- Lucian, sei que você não pediu para ser o que é hoje, mas tudo na vida, ou melhor, tudo aqui neste planeta, as coisas são criadas para evolução do ser humano, e você faz parte disso, mesmo não sendo mais humano.
- Ai... estou ficando confuso. - coloquei as minhas mãos sobre a minha cabeça e sentei-me novamente para poder prestar atenção.
- Você precisa conviver mais com os humanos, aprender mais com eles. Seu desenvolvimento aqui precisa disso.
"Você não está condenado como sempre vem pensando. Você um dia irá morrer como todos os outros mortais, mas só quando chegar a sua hora".
"Ao se transformar na criatura que você é fez com que você cometesse muitos erros, mas com passar dos anos e até mesmo de décadas, você se transformou numa pessoa boa, e você está sendo apenas uma ferramenta para a humanidade, diferente de outros que são iguais a você".
"Você não mata as pessoas por necessidade, vingança ou apenas para mostrar seu poder. Você as mata por que são pessoas más, bandidos e até mesmo para ajudá-los a acabar com tanto sofrimento, como alguns doentes e pessoas descontentes com a vida".
- Tá tudo bem, mas por que sou tão solitário? E sofro tanto com isso? Por que tenho que viver assim se não gosto de viver assim? - novamente uma pequena explosão de raiva surgiu dentro de mim, só que mais forte que antes.
- Infelizmente, meu querido Lucian, a sua condição não permite que seja feliz ao lado de alguém, porque se ela for mortal, você a verá morrer a cada dia, e se você a transformá-la numa imortal, como você, com o tempo ela irá abandoná-lo como todas fizeram. O amor é eterno, mas quando estamos presos a um corpo, assim como você, ele dura poucos anos ou décadas. O corpo e a carne se degeneram, assim como o amor carnal.
- Mas o que eu tenho que fazer para não sofrer mais? Essa minha condição me dói muito, não quero mais viver assim, já que não posso por fim a minha própria vida, se é que posso chamá-la de vida, porque sei que não morremos tão fácil assim, me diz o que tenho que fazer!
- Como já disse antes, Lucian, você tem que viver e aprender com os humanos, seu lado humano é muito forte, mas parece que você tem medo dos humanos. Viva com eles, aprenda com eles, sua libertação depende disso, para morrer em paz e não se condenar, como outros de sua espécie, viva e conviva com eles. Só os humanos podem lhe mostrar o caminho da felicidade. E veja bem: pelo tempo de sua existência você tem um ótimo conhecimento sobre o mundo e sua história. Use isso a seu favor. Sua hora de morrer ainda não chegou, e sempre estarei por perto, mas nem sempre aparecerei para você como nesta noite.
O brilho que tinha no início voltou a surgir e ela ou ele novamente começou a flutuar. Olhei com ternura e ainda com o meu coração apertado e angustiado perguntei:
- Qual seu nome?
- Me chame do que você quiser. Meu nome é o que menos importa agora - disse me mandando um pequeno beijo com as suas mãos desaparecendo por completo à minha frente.
Fiquei mais alguns minutos sentado, pensando em tudo que aquele anjo me disse, tentando ver como poderia conviver mais próximo dos humanos, já que só posso andar à noite e viver de sangue humano...
Bom eu também posso beber sangue de animais, mas confesso que os acho criaturas melhores que os próprios seres humanos...
Ainda tinha pouco de sangue no meu rosto devido às lágrimas, tentei enxugar com as mãos, mas isso só piorava.
Um homem, ainda de batina - devia ser o padre da capela - apareceu e disse com uma voz assustada:
- Como entrou aqui? Quem é você?
Apenas o olhei e depois abaixei a minha cabeça e fiquei olhando para os meus pés, como uma criança perdida, querendo colo da mãe... E disse baixinho:
- A porta estava aberta, por isso entrei...
- Eu juro que tinha deixado a porta da capela fechada... - o padreco disse indo em direção à porta para fechá-la. - Tem muita gente perigosa por aqui, tenho medo que roubem algo daqui também... Mas me diga, meu rapaz, como entrou aqui? O horário da missa já passou há muito tempo...
Levantei meu rosto para olhá-lo quando ele notou que havia sangue no meu rosto.
- O que houve? Você está com o rosto todo sujo de sangue... Venha comigo, vamos limpar isso e daí você pode me contar o que aconteceu com você. Estou aqui para te ajudar.
Pegou-me pelas mãos, levantou-me do banco e colocou um dos seus braços em volta do meu ombro.
- Tenho um vinho delicioso que você irá adorar, assim você pode relaxar um pouco... Me diga, qual seu nome, rapaz?

FIM

São Paulo, 19 de junho de 2002.

 

Angel = anjo em inglês

Ângelus = 1) prece em latim que começa com esta palavra, e que se reza ou se canta de manhã, ao meio-dia e à tardinha.. 2) toque do sino que anuncia a hora desta prece.

 
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