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Não
podia acreditar que estava com ele depois de tanto tempo de
espera. Poder sentir sua pele, seu cheiro. Poder beijá-lo;
ser sua pra sempre.
Estávamos naquele galpão velho da cidade, deitados no chão
sobre um velho pedaço de lona. Com várias velas brancas a
iluminar o lugar. Tudo perfeito, tão perfeito quanto os meus
sonhos e desejos de encontrá-lo.
Olhava-o com ternura, quieta, admirando cada traço de seu
rosto. Podia notar as tristezas e alegrias ocorridas nesses
anos todos em seus belos olhos verdes acinzentados. Seu rosto
era perfeito, tão bonito, tão belo. Seus cabelos ainda estavam
molhados por causa da chuva, o que o deixava ainda mais doce,
mais romântico.
Deitados seminus. Eu ainda estava com o meu vestido de alcinha
vermelho, também ainda molhado pela chuva, e ele tirou o casaco
de couro preto e a camisa preta que vestia naquela noite.
Seu corpo era bem torneado e trabalhado, um abdômen definido,
perfeito. Usava uma calça jeans, também molhada, que ficava
justa, moldando suas grossas pernas.
Podia sentir suas mãos por todo meu corpo. Tocava-me inteira.
Isso me deixava excitada, quase em transe. Tanto suas mãos
como seus olhos percorriam meu corpo. Ele desprendeu meu cabelo,
acariciou meu rosto e me deu um beijo longo, doce, demorado.
Poderia ficar ali com ele a vida toda; eu o amava.
Cada vez que o olhava podia sentir seu desespero, ele não
queria estar ali, não queria fazer o que eu queria. Apenas
ficávamos calados, tocando em nossos corpos, como se fosse
a última vez que nos viríamos.
Beijávamos.
Suas mãos percorreram as minhas coxas. Levantou o meu vestido
e me tocava com ternura.
Ele me penetrou e pude sentir todo o seu corpo em cima de
mim. Seu corpo quente, molhado, forte. Seu cheiro adocicado,
excitante. Fazíamos amor com paixão, ternura.
Ele me beijava com muita força. Nunca havia sentido tanto
amor. E eu o amava ainda mais. Cada movimento, cada toque,
cada beijo.
O êxtase veio junto e ficamos abraçados por longos minutos,
sentindo o coração de um e de outro, num ritmo constante,
sincronizado. Como se fôssemos um só.
Ele olhou para mim novamente, admirando cada traço do meu
rosto. Tocando-o com seus dedos, como se estivesse decifrando
um mistério que ele não conhecia.
Percebi que ele me fez uma pergunta mentalmente: "Tem certeza
que é isso que você quer?". Nenhum lábio se moveu, mas ouvi
a pergunta como se tivesse falado em voz alta.
"Sim, tenho", respondi também mentalmente.
Ele me dizia que seria um caminho sem volta, e que as conseqüências
poderiam ser várias, das mais boas para as mais horríveis.
Apenas eu dizia que já tinha me decidido, que já havia esperado
tempo demais por ele, e que agora poderia ser sua pra sempre,
ou pelo menos até onde a vida poderia nos levar. Só o decorrer
dos anos é que diriam o que seria da gente. Era um preço que
queria pagar, mesmo que esta noite fosse a última, queria
apenas ser sua.
Suas mãos tocavam meu pescoço, me acariciavam.
Fechei meus olhos e curvei meu pescoço para trás. Senti seus
dentes penetrar meu pescoço. Senti todo o meu sangue correr
pra dentro dele. Senti a minha vida indo embora, cada lembrança,
cada memória, todas as tristezas, angústias, as alegrias indo
para ele. Meu coração mal batia, estava morrendo.
Ele me beijou.
Pude sentir ainda o sangue que ele me sugou nos seus lábios.
Um frio enorme percorria meu corpo.
Desespero.
Sorriu pra mim e beijou-me novamente bem de leve. Levantou
seu braço e cortou-lhe seu próprio pulso com seus dentes.
Deu-me seu sangue. Agora sentia a vida dele em mim, nossos
corações batiam freneticamente. Meu corpo se aquecia, estava
ficando vivo novamente. Aquele sabor me enchia de vida, uma
nova vida. Estávamos sendo apenas um.
Tirou seu pulso de minha boca e deitou-se ao meu lado. Agora
podia sentir o que era morrer de verdade. Meu corpo todo doía,
me contorcia. Era horrível. As luzes aumentavam a sua intensidade,
os sons ficavam mais nítidos. Não conseguia distinguir mais
nada, muito menos onde estava, apenas ouvi: "você está se
tornando igual a mim, esse processo é normal, não se assuste".
Parecia que aquele galpão se derretia, que eu entrava num
imenso túnel sem fim, sem luz. Tudo girava. Aquilo durou alguns
minutos.
Ainda com a minha respiração ofegante, ele voltou-se para
mim e me beijou. Tudo estava diferente, mais belo, mais intenso.
Beijávamos, nos beijávamos intensamente. Éramos apenas um.
Éramos amantes imortais.
São
Paulo, 1 de abril de 2002.
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